domingo, 2 de maio de 2010

Um jardim Secreto.


Tira do teu coração este chumbo.
Tem mais leve o próprio passo
Vê como um inefável jardim, o mundo.
Percebe como levas o espírito lasso!
Deita, pois, sobre o húmus do tapete vegetal.
Alonga os olhos à hora do amanhecer
Vê ganhando matizes o céu matinal
Joga a cabeça para trás, deixa o ar te preencher.
E perceberás que tua carne não precisa de nada
Que o astro cálido restaurará às faces tuas cores
Como ao pálido céu, na sua quietude dourada,
Enrubescendo, na primavera, as várias flores
Guardando no cálice vegetal, o doce segredo
Da vida, que se estende em cada forma que respira.
Ouve do gentil pintarroxo o canto ledo
Sente que da natureza a energia do sopro ele tira
Contempla a vida como um secreto jardim, inefável
Que guarda nos ventos silenciosos, a paz.
Não uma paz terrena, mas uma inimaginável.
Ouve, pois, os uivos sapientes assaz.


Ouvindo: “Secret Garden soundtrack” , Zbigniew Preisner, e
“Kindle of my heart” (‘a little princess’ soundtrack).

Mais um pouco de metalinguagem: E um pouco de saudosismo.

No post anterior falei sobre obras que me proporcionam a sensação de nostalgia, que a leitura traz com palpável ressonância, o rememorar momentos de ‘uma infância tão bem vivida’.  Disse também que continuaria buscando tais obras. Bom, a obra desta vez foi “O jardim Secreto” de Frances Hodgson Burnett.  Ah, e o ‘poema’(?) foi conseqüência de momentos agradabilíssimos que passei com personagens tão simples que transmitem uma singela – pura e desataviada - noção de vida em um cenário bucólico, onde as pessoas e a natureza estão intimamente ligadas.

sábado, 24 de abril de 2010

Um mundo maravilhoso.


Roda, roda o mundo
Enquanto gira o ponteiro,
Vede a beleza do segundo!
Regozija-se o relógio prazenteiro
Carrega-o, atrasado coelho branco
Fruto onírico da doce menina
Que navega sobre o próprio pranto
Crescer e amiudar, eis a sua sina!
Nesse mundo em que nada há de comum
Sorrisos e listras de Cheshire, o gato
Deliciam-nos Tweedledee, Tweedledum
Corra Alice, sem tênue hiato
Para ser, no mundo inverso, rainha exímia.
À noite, percorrendo os óbices e o riacho
          E com louco chapeleiro, chás e charadas do dia


  Comemoremos, então, nossos desaniversários!
       Com a Lebre de Março e o Humpty Dumpty
            Que, zombeteiro, explica os poemas extraordinários
       Pois só aqueles que são puros de coração
          Alcançam o sentido pueril. Nã’o faz nem nobres             
    Estes pequenos reis sem imaginação.
            São, pois, no país maravilhoso, meros pobres,
      N'sta rica dança a que Lewis Carroll      
deu notas e passos. Aí quem roda é criança    
'Rod'a roda, para se secar quem se molhou'
Rod’a roda pois aí vem nos deitar de pranto, o mar
Roda, roda para girar o mundo que Alice sonhou.
                                               

Pintemos nossas rosas de carmim
Para não termos um terrível fim.

Vede a vida como um louco chapeleiro
Vede como estes singelos versos de fevereiro...









Antes de tudo, esse acidente literário se deu em fevereiro desse ano, quando eu havia acabado de ler dois livros...
Eu sei que falta agudeza às idéias do poema (?) e, sobretudo, uma boa estética, métrica. Esses, porém, são talentos de que, infelizmente, sou totalmente destituída. Em matéria de verso, admito e já admiti, sou medíocre. No entanto, esses versos obtusos surgiram num momento em que a minha vontade de versejar as aventuras – e a genialidade intrínseca a elas – que acabara de ler superou o meu bom senso – este que me tirava a ousadia de versificar minhas toscas visões.

As idéias, a vontade de "poetar" e a fraqueza do meu bom senso (!) vieram por ocasião da leitura de duas obras inefáveis: “Alice no país das maravilhas” e seu seguimento, “Alice através do espelho”. Duas obras, cujos valores literário e histórico inestimáveis, já faziam fama na época de seu lançamento, na Era Vitoriana. Compostas com maestria pelo matemático britânico Charles Lutwidge Dodgson, (conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll) essas aventuras – ou desventuras? – seriam, posteriormente, um divisor de águas da Literatura clássica, em que de um lado havia o gênero sério, no máximo joco-sério e, de outro, o surgimento do gênero nonsense. Carroll é, inclusive, um dos poucos autores desse gênero. Sob uma perspectiva insólita e uma mente arguta, Lewis começou a escrever em 1862 uma fantástica história que em 1951 ganharia uma deliciosa versão da Disney – um marco da minha infância -. Em 2010, ‘re-produzida’ por Tim Burton, ganha uma nova recepção, e, saliente-se, nova acepção para o público. No entanto, ler Alice só por ocasião do lançamento de um filme que promete ser sucesso no Brasil – já consagrado nos E.U.A. -, pode ser decepcionante àqueles que se apaixonaram pelo gênero nonsense, por cada personagem e por seus respectivos relacionamentos e diálogos travados com a singular Alice.
O prazer de ler Alice é muito anterior, ou vai muito além, ao prazer de vê-la – a história - reproduzida sob os ardis da tecnologia contemporânea e sob a capacidade ‘hollywoodiana’ de vulgarizar – no sentido de tornar clichê e à semelhança de tudo que já produziu - histórias que em sua essência são singulares. 
Por outro lado, ler Alice é – ou pode ser, depende do ‘histórico’ do leitor - uma experiência insubstituível àqueles que guardavam na memória tênues lembranças de Alice na infância, desde livros, lancheirinhas escolares, primeiras tentativas de desenhar uma personagem idolatrada, temas de aniversários – e desaniversários – ao desenho da Disney.  Ler as obras foi, para mim, reacender minúcias de uma infância tão bem vivida. Revivi sensações, pelo resgate de lembranças da meninice, além de conquistar novas impressões que Lewis Carroll é excepcionalmente capaz de proporcionar por seu evidente conhecimento sobre o universo infantil. O excêntrico escritor conduz de forma tão palatável, mesmo ao público adulto, esse universo infantil por sua habilidade de tecer ingênua e, ao mesmo tempo, sabiamente seus enredos e personagens. E não se engane: A literatura ''carrolliana'' é nonsense, mas no que diz respeito ao seu caráter surreal, feérico e aparentemente ilógico. No entanto, o que Lewis Carroll faz é desafiar essa lógica, não bani-la. Deixa-se de observar abusivamente uma ordem de valores, tão observados na era vitoriana, e prender à narração, de forma viciosa, uma moral paradigmática que chegava a ser absurda no que se refere à educação infantil da época. Carroll satiriza, através do nonsense, esses costumes que aplicados rigorosamente tornavam-se ridículos e mesmo sem sentido.  Um bom exemplo disso é a freqüência contumaz com que a Duquesa diz a Alice: “... e a moral disso é...”. E é interesse observar que essa moral vem sempre desprovida de coerência, como:


(...) “e a moral disso é... ‘Cuide dos sentidos, que os sons cuidarão de si mesmos.’'  “Como ela gosta de achar uma moral em tudo!” pensou Alice com seus botões."

O simples contato com as obras “Alice no país das maravilhas” e “Alice através do espelho” trouxe-me uma sensação de nostalgia que a leitura traz com palpável ressonância. Sensação que busquei, posteriormente, e continuarei buscando em outras obras que me façam lembrar, rememorar, é claro, sob a perspectiva que o tempo nos faz adquirir. E assim, formando uma nova perspectiva que, embora mais madura, não me impeça de ver com certa ingenuidade tudo o que me cerca. Para perceber, como diria Lewis, o ouro no meio da escória.
Enfim, Lewis Carroll é genial por ser como o artesão que produz um trabalho artesanal simples, cuja matéria, contudo, é um verdadeiro mosaico de interpretações e ricas impressões. 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Nova perspectiva.

É só de mim que me preencho
Nesse vasto vazio que se faz intenso
Tanta pujança, tamanha é a fraqueza
Dos pulsos que se enchem de chumbo
Pois é sangue que o coração bombeia
Ao passo que a mente quer só maciça certeza
Reviro-me, queimo-me, torno-me. É de fé que precisa a veia!
Porque quando eu quero ser outra
Eu busco as fantásticas formas
Livre, imaculada, infantil, louca
Eu quero queimar as bordas (Quero ser quem sou)
Porque eu queria ser leve e maleável como a nuvem
Estender-me, fundir-me em mil matizes
Meus tons voam, vão e vem
Rabisco o indelineável no papel
Por fora eu não sou NADA!
Mas dentro de mim, jaz o céu
Porque às vezes eu tenho que fechar os olhos para ver
Abro as janelas, fito uma nova perspectiva
O papel vazio, a mente divaga...


"Stop there, and let me correct it
I wanna live a life from a new perspective"
 

- New Perspective, Panic! at the Disco.

           


p.s.: Eu sei que essa mania minha de pôr fotos nos meus post's, além de clichê, pode ser um tanto piegas, mas, às vezes, uma imagem diz, para mim, mais que mil palavras. Por mais estúpido que possa ser...


p.s 2.: Percebi que os meus post's levam o texto sempre com a mesma cor, os mesmos tons. Decidi usar algumas cores que ainda não havia usado. Decidi ver meu meu texto sob uma nova perspectiva. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

"Tu Tens um Medo"

"Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno." 


            (Trecho de "Tu Tens um Medo" de Cecília Meireles - Sempre ela, decifrando-me em versos).


Medo. Medo do amanhã. Medo de errar. Medo de perder, magoar, chorar... Medo das reticências. E dos pontos finais.
O peito dói. Sente o nó na garganta, a respiração descompassa, a cabeça lateja, as mãos tremem, os lábios vacilam: Vai chorar. Sim, certamente, ela vai chorar. Já sentia as mãos algozes cercando-a. Está chorando. Mas os olhos ainda refletiam o clima árido. A dor no peito aguda. Fecha os olhos procurando se concentrar na dor que a possui. Encontra-a. Dá-lhe um sorriso insatisfeito. Infeliz. Agora que a encontrara, tomou coragem para intensificá-la, querendo, dessa forma, que todo o seu corpo se conscientizasse da sua presença inoportuna. Essa dor que a invadia silenciosamente precisava ser delatada. Os olhos já ardem, mas ainda não transbordavam. Precisava concentrá-la mais...
O peito ainda doía, o nó no estomago. Fecha-se, então, num abraço solitário, encolhendo-se, enroscando-se em si mesma, recebendo-se e dando-se o próprio parco calor.[1] Os joelhos quase tocam o seu queixo. Como se todos os membros necessitassem, naquele momento, de uma unidade consolidada. Todas as partes anatômicas coesas, atentas. A sensação penosa estava ali. Fecha os olhos concentrando-se mais uma vez. A pele precisa ser testemunha. Os olhos ardem com mais intensidade. Sente a pele abrasar, a visão embaça. Sim, precisava chorar. Precisava abrandar a dor. A pele seria testemunha. Precisava ser tocada pelos filetes aquosos... A dor já foi delatada. E eis que as lágrimas calorosas são recebidas pelas extensões da pele ardente. E nessa troca veio o arrefecer, a paz? Ainda não. Sua dor não era pura, simples, concisa. Está difundida demais. Antes da calmaria vem a tempestade. Desta feita, os filetes aquosos tornaram-se torrentes d’agua salgada. A boca trêmula se esticara num sorriso agonizante. Os dentes se estreitaram, como se lutassem entre si. As mãos tremulantes se agarraram ao cobertor. Os reflexos do próprio corpo agiam num labor silencioso. Agora sim, tomara conhecimento da intensidade do próprio sofrimento. Deixou que ele tomasse conta do seu corpo, por hora. Pessimista? Auto-destrutiva? Não. Fazê-lo era mesmo necessário. Precisava assumir seu próprio sofrimento, pelo menos, para si mesma. Ela ainda não se libertara. Ainda não deixara que seu corpo, sua alma, se estendesse além, ou através, de outrem.  No entanto, tudo dentro de si era extenso demais para os limites que lhe impora a sua condição carnal, humana. Minutíssima para uma alma prolixa. O seu vocabulário, ou até mesmo a pele, o maior tecido do corpo, não eram o suficiente para traduzir as extensões de sua força vital. Agora que a sua face rubra, e até mesmo o cobertor, conheciam a sua aflição, seu corpo estava exausto. Exausto, por chorar, demais para sentir nós na garganta, no estômago... É verdade que a cabeça doía-lhe ao dobro. Agora, porém, não sentia mais medo do porvir, de seus erros. Estava fraca demais, contudo, paradoxalmente sentia-se mais forte. Acabara de ter coragem de assumir, sozinha, para si mesma, o teor de seus medos. Fitava-os, intrépida. Seu corpo sentira o teor de sua precipitação. O futuro nunca foi problema. Talvez, nem mesmo o medo. O medo de assumir o medo é que a tornava fraca. Agora que os via tão mais nitidamente, mesmo com a visão embaçada, percebia-os tolos. Nada poderia ser pior do que o medo do medo. A ansiedade. A irreflexão. Deixaria a calmaria se instalar, mesmo que a tempestade voltasse em dias enevoados. Deitaria a face no travesseiro e dormiria. E, provavelmente, sonharia.


"Chorar é diminuir a profundidade da dor."   William Shakespeare
Ouvindo: Learning to Breathe - Switchfoot. 





[1]Nota: Trecho em negrito, excerto de "A hora da Estrela", Clarice Lispector.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Quando a infância acaba...

A vida era um conto arquitetado por uma mente pueril
As fadas ainda estavam lá, até a sua primeira mágoa
Os carrascos da verdade lhe mostraram, afinal, o vil
A desilusão vertia-se, agora, num rumo que lancinantemente deságua
As criaturinhas sumiram nas últimas badaladas
A pequena já conhecera o mal nas fábulas
Os Grimm e nanquins escreveram as ciladas
Gigantes, bruxas, príncipes e tábulas
Idealizações a invadiam desde quando usava meias de cetim
Laços e abraços no balanço da árvore outonal
Ali, ela girava num mundo de personagens singulares e histórias sem fim
Raptava vaga-lumes na noite celestial
À meia-noite deitava a cabeça no travesseiro
Rabiscava tacitamente os traços do ser encantado
Nos sonhos planejava para si, um amor derradeiro
Mas no fundo sabia, logo tudo estaria enterrado
Abandonaria Brontë para ver o jovem Gregor acordar metamorfoseado
Transbordaria de verdade o seu novo mundo
Escarnecer-se-ia das almas quixotescas
Para ver o personagem fabuloso jazer mudo
Acharia o “mocinho” uma invenção burlesca
Não mais seguraria sapos na mão
Derramaria nos olhos, o cinza dos céus
Tornaria ímpio o próprio coração
Feras, barbas azuis, trevas e mausoléus
Fariam parte de um mundo deixado para trás.

Matou seus heróis fantásticos
Para crer nos verossímeis...



Ouvindo: Paramore - "Brick My Boring Brick" / "The Only Exception" 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Plenilúnio.

"Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida(...)
tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia, o outro desapareceu..." (Cecília Meireles - Lua Adversa)



  O sono queima a beira do dia
Quando acordo já é noite
Uma noite claramente sombria
O luar soturno é como um açoite
À sensibilidade da minha’lma atormentada
Que zela subserviente pela lua tão distante e iluminada!
Tão branca assaz exangue.
Morre dia a dia
Preenchendo meus pulsos de sangue
Para nascer em mais uma noite fria
Circunspecta em sua algidez
Sabes bem que é protagonista na poesia 
Passo noite em claro para contemplá-la mais uma vez
Fita-me ela cheia de brio
Sabes que sua beleza guarda a virtude
Sua imagem captura-a até o rio!
Desce do céu – esperança-se o rio – inexaurível em plenitude
Mas vejo mãos truculentas alcançando-a
São nuvens precipitando-se sobre a lua, outrora nua
Querem a sua grandeza, a sua forma luzidia
Apaixonam-se as sombras algozes!
É a lua grande alcoviteira
Sob sua luz iludem-se os jovens corações atrozes
Transborda-os de melancolia beira a beira.

  

E eis que nasce um novo dia
Queimando o plenilúnio
E enquanto o admirador se alumia
Guarda a clara certeza da renovação
Imanente entre cada declínio lunar e cada ascensão solar

(Luana Lins)





p.s.: UM POUCO DE METALINGUAGEM:

Dessa vez, as rimas foram deliberadas.
Não gosto de alcunhar nada do que faço de “poema”, pois não me considero “poetisa”. Não costumo arriscar esse ritmo de escrever – poético -, já que, admito, sou medíocre nesse tipo de composição. Talvez eu o chame, portanto, de canção. Uma canção que, no entanto, não possui uma melodia.
Escrevi – a canção – depois de passar um dia dormindo e acordar no seu fim. Isso sempre me frustra de alguma forma. Talvez seja a pungente sensação de perda. Resolvi, pois, escrever sobre as circunstâncias do dia e da noite, as impressões lunares... Gostaria de, contudo, delinear a linha tênue que separa o dia da noite. É tão simples, mas tão impressionante! Todos os dias, esboçado no céu, há um efêmero momento de transição, que pode ser visto como morte ou restauração, do tempo que passou, ou do porvir: O lusco-fusco, o poente. Esse momento do dia sempre me deu um pouco de melancolia. Essa, porém, é a primeira vez que materializo tais impressões.


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dois perfis.


Algumas pessoas já nascem chorando. Outras, no entanto, precisam de um tapa para o primeiro sopro da vida. 

Existem dois tipos de pessoas. Há as que exalam felicidade e que não possuem medo de buscá-la. Acho que são aquelas que vêem na dor uma oportunidade de compartilhar algo profundo. São receptivas para o mundo. São livros abertos, pois no íntimo sabem que suas histórias compensam ser lidas, já que são boas histórias, afinal. Acho que são mais sensíveis também, visto que se percebem tudo o que sentem – já que não têm problemas quanto a falar sobre isso – são, conseqüentemente, habilidosos na arte de perceber o que os outros sentem, isto é, de olhar nos olhos e transmitir tudo o que está em suas mentes com tanta facilidade! Falam abertamente sobre suas experiências e idiossincrasias. Fragmentam-se, mas é evidente que possuem poder suficiente sobre cada parte, pois são capazes de recolher cada pedacinho de volta. Vejo essas pessoas por aí, em abraços íntimos, em sorrisos estouvados, nas lágrimas libertas perante outrem, esboçando uma vulnerabilidade intrépida. Admiro-as, pois essas pessoas não são: Eu.

Há outro grupo de pessoas, que são a antípoda das espontâneas. Essas possuem a felicidade latente, perturbando a sua aparente tranqüilidade. Impassibilidade. Honestamente, mesmo, eu sequer sei definir essas pessoas inúteis. Mas vou tentar. Admito, com antecedência, que pode parecer confuso. Provavelmente porque não as conheço suficientemente bem, e, mesmo assim, sinto essa vil necessidade de traçá-las por meio de palavras. Projetar um retrato falado, não para incriminá-las, mas para reconhecê-las. Preciso delinear esse enigma. Pintar um quadro funesto, mesmo que no escuro. Escrevo ignorante, na tentativa de encontrar uma verdade para aqueles que não falam com o coração. Que guardam para si a melhor parte do humano. Qual? Tudo o que sentem. Não sei se é deliberadamente, ou se é hereditário, que alguns indivíduos não legitimam os seus sentimentos, compartilhando-os. Provavelmente porque não se sentem dignos o bastante, ou porque seus pensamentos são ruins demais, imagino. Ou pior, porque não pensam em nada. Não os condeno. Pode parecer patético, mas eu sempre me surpreendo tentando não pensar em nada. Fitar a vastidão do vão. Ouvir o eco do oco da minha grande e estúpida cabeça. Surpreendo-me reprimindo meus pensamentos saudáveis e ostentando os estranhos. Decididamente, minha cabeça não funciona bem. É por isso que não me cansarei de aconselhar meu caríssimo – e mais que hipotético – leitor: Não leia a mim. Pois eu não sou saudável em letras. Eu não costumo me ler. Principalmente para os outros, para o mundo. Se eu fosse uma história, das duas uma: seria um drama fatigante ou uma comédia funesta. Sim, paradoxal. Este é o meu lema, o meu eterno humor negro. Entretanto, não posso me perder do meu fito por melindres. Estou falando sobre definir os que não choram, não falam e que vivem apáticos, em um eterno estado de letargia. Um trauma incurável do nascimento. Parece que elas ainda não se habituaram ao ar fora do útero. Ainda sentem as vias respiratórias inflamadas? Preferiam o mundo escuro, aquoso e seguro do ventre materno? A minha vontade é de dar um tapa nessas pessoas para ver se elas despertam, para vê-las chorar, gritar. O primeiro tapa da vida não foi o suficiente? É necessário chorar de novo. É estranho ver como algumas criaturas parecem andar para trás, transgredir... Como se dia a dia, simplesmente desaprendessem a viver!

Falando sobre aprender, - e já que eu comecei com “falando” -, lembrei-me de que custosamente aprendi a falar. Mas digo, falar normalmente, o bom, ou razoável, português de uma criança que inicia a língua materna. É engraçado lembrar – minha mãe conta – como eu parecia estar inserida em outro mundo. E eu disse “falar normalmente”, pois falar eu falava. No entanto, nada que um extraterrestre pudesse entender. E o mais estranho, falava a ninguém, que alguém pudesse ver. Quer dizer, eu havia escolhido como língua, uma indistinguível, e como interlocutor, um inexistente. Ironia isso, pensei agora, pois esse é o tipo de coisa que estou fazendo exatamente neste momento. Falando a ninguém e, certamente, com uma sintaxe tão grotesca, que torna impossível qualquer entendimento semântico para o meu tão saudado e hipotético leitor. Assim como fazia antes, com o meu “hipotético”, ou imaginário interlocutor. Na época alcunhavam-no de “amigo imaginário”. Talvez eu só estivesse treinando a minha habilidade de falar com um ser que por não existir, não se importaria. Daí quem sabe, um dia não estaria tão inepta para me comunicar com as pessoas de verdade. Taí, talvez seja esse o problema dos nossos inúteis retraídos – aqueles que possuem a felicidade indevassada, e não dissipada, como nos espontâneos. Enfim, talvez – talvez (!) - os que não conseguem falar com o coração, com as mãos, olhos e sorriso, às pessoas, ao mundo - estes mudos de expressões, porventura, só estejam esperando o ensejo para manifestar a sua aptidão para abrir suas mentes. Eles já aprenderam a falar, não obstante, sem sangue e coração. Perdoem o romantismo exagerado/açucarado. Espero, sinceramente, não deixar o leitor diabético.

En- fim (!) acredito que esses indivíduos estejam presos à sua condição hermética, recolhendo-se num ostracismo sutil de suas comoções e pensamentos desordenados. Um constante e pertinaz labor: Sufocar dia a dia o motim que persiste em se instalar, por detrás das argamassas que sustentam a aparente – e dissimulada – calma. É por isso tudo que os retraídos estão presos por suas próprias sentinelas emocionais. É por isso que não conseguem se libertar em abraços íntimos, lágrimas estouvadas, sorrisos e deliberações. Estão imobilizados por seu comedimento no medo de... Se magoarem? Duvido. Humm... Suspeito de que temem descobrir que compartilhar a dor não compensa. Nada muda. Demonstrações de afeto nem sempre indicam genuína afetividade... Mas a felicidade ainda está latente... Latejando... Perturbando a impassibilidade medíocre. Suspeito de que o maior temor das pessoas que não descortinam seus pensamentos para outrem é decodificar a si mesmo e se surpreender. Desconhecer-se. Isso, considerando que é nessa mútua descoberta, que nos conhecemos verdadeiramente. Logo, talvez, o medo esteja na verdade traçada pela descoberta. O medo que sustenta a latência da felicidade está na entrega. No temor de se tornar suscetível. E, sobretudo, na insegurança que os da felicidade latente têm das conseqüências de tais escolhas. Das implicações da oferta silenciosa – os fragmentos de si mesmo. Especialmente porque neles deve haver a consciência de sua impotência perante tais fragmentos. Poderão mesmo pegá-los – os fragmentos - de volta, uma vez estes distribuídos?

Parece, portanto, mais lógico, ou mais seguro, permanecer na mediocridade – letárgico e apático. E não os reprovarei. É certo que é deveras covarde. Mas que é isso tudo se não um evidente mecanismo de defesa? É irrefutável que, uma vez experimentada a felicidade, certamente virá o sabor acre. E será sempre assim, prazer e dor. Um quadro perfeito da dualidade intrínseca à condição humana.

Como eu disse, algumas pessoas nascem chorando... As outras, bom, se não for no primeiro instante de vida,  a vida, mais tarde, se encarrega de nos dar o primeiro choro, ou qualquer outra indicação de que estamos, de fato, vivos, não catatônicos, mas, inteiramente vivos.


Ouvindo: "Make me Over" - Lifehouse.