Porque, um dia, as vozes de todos aqueles textos – sangue dos poetas mortos - se dissolveram em minha cabeça, e esse líquido que era multifásico, heterogênico, agora é um, mas nem por isso uno...
“Matéria é de coturno, e não de soco,
A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;
Qual Iopas não soube, ou Demódoco,
Entre os Feaces um, outro em Catargo.
Aqui, minha Calíope, te invoco
Neste trabalho extremo, por que em pago
Me tomes do que escrevo, e em vão pretendo,
O gosto de escrever, que vou perdendo”
(Os Lusíadas, Camões; Canto X)
Passeio na incerteza da forma
Moro na possibilidade,
Casa mais bela que a prosa,
Rua que não se manifesta:
É longa, é alta,
Às vezes escura, mas tem forma,
Tem festa.
Na densa noite, observo:
Nossa sentimental amiga, a Lua!
Ou talvez... Seja o adorno da Noite, querendo seduzir
Os jovens corações atrozes jogados na rua...
Alumiando pobres viajantes rumo a seu pesar
Viajantes saltimbancos, poetas notívagos,
E ela (a Lua): “Como divagais.”
Ó, Ossos dos poetas mortos, a prosa desafiais!
À prosa desafiais!
Poesia, poesia te desvias...
Desafias o arcabouço da linguagem, e suas vias...
Marginaliza a gramática que adoráveis
Pois o homem que jamais muda sua opinião é como água estagnada
E engendra os répteis da mente, os extintos répteis...
Tece poesia, lenço que de um lado é forma e de outro, conteúdo:
A linguagem, nuvem capciosa, é opaca e, na densa noite de
Plenilúnio, o poeta a ela se dirige:
“Rio dos mistérios,
que seria de mim
Se me levassem a sério?”
Pois então, ri, ri como os loucos
Devaneia como os sensatos
Pois todo signo é ao significante pouco
Não pensa, então, em hiatos
Escreve como condenados – à própria paixão
Que nas trevas da ignorância
Aguardam às portas da percepção
Portais de multicolorida ânsia
Toma da árvore o proibido fruto ígneo
- A destruição das coisas é o sentido da poesia -
Em todo escrito há uma falência, é vil,
Pro que se sente, julgá-lo pouco é lisonjeiro, e O Poeta o sabia!
O pensamento é fluxo selvagem, intransponível
E a poesia, que flui melíflua, é, porém, inerte retrato!
A alvura da folha, terra de ninguém, tão falível
E é o cinza da massa encefálica que define o trato.
Poesia
Desafia
O pensamento
Sê seta que corta o vento.
para o conceito! este, para o que eu senti,
julgá-lo “pouco” é quase lisonjeiro.”